Filme - Círculo de Fogo


É evidente que a grande sacada de Círculo de Fogo é o tratamento da temática que diz respeito à Segunda Guerra Mundial a partir dos conflitos travados no front oriental, ou mais especificamente na cidade de Stalingrado. A batalha pela cidade é considerada uma das mais sangrentas da história, causando a morte de nada menos de 1,5 milhões de pessoas, refletindo o imenso esforço da Alemanha e dos Russos no combate.


O excelente diretor Jean-Jacques Annaud faz questão de acentuar esse esforço – em especial dos russos – mostrando que a população civil estava impedida de deixar a cidade e, por outro lado, expondo a disciplina soviética que incitava os camaradas ao combate, através do lema “nem um passo atrás”, mesmo que isso representasse a morte certa. Para se ter uma ideia a expectativa de vida dos praças recém-chegados ao aos combates era de menos de 24 horas. É o que Annaud precisava para introduzir a temática da propaganda e os dois personagens principais.

Diga-se de passagem, de fato, os franco-atiradores soviéticos tornaram-se símbolo da resistência russa, fazendo história na Batalha por Stalingrado. As ruínas possibilitavam sua atuação, causando grandes baixas entre as patentes alemãs. O mais famoso desses atiradores foi Vasily Zaitsev, que segundo dados dos soviéticos teria acumulado 242 mortes somente durante a batalha por Stalingrado e mais de 400 durante a guerra. Zaitsev sobreviveu à guerra, tornou-se herói nacional, trabalhou em uma fábrica (que era o seu sonho) e morreu em 1991.

Mais interessante é a temática sobre a persuasão através da propaganda. Expediente usado pelos seres humanos a milhares de anos, a propaganda foi utilizada amplamente na Segunda Guerra Mundial, por todos os beligerantes e com finalidades diversas. Conhece-se o papel didático que a arte e a propaganda encontraram no nazismo, em especial aliada e eugenia e com a finalidade de macular os judeus e minorias desprezadas. Na Rússia, Stalin também se utilizou de estratégias persuasivas com a finalidade de manutenção e potencialização de seu poder pessoal, em um verdadeiro “culto à sua personalidade”. Igualmente, no combate por Stalingrado, o heroísmo de alguns combatentes acrescentados à necessidade de fidelidade absoluta ao regime e aos “ideais comunistas”, bem como à irracionalidade da guerra, poderia levar os soldados a uma superação necessária e compulsória.

Outra boa sacada do filme é a inclusão do camarada Khrushchov que se tornaria secretário-geral do partido comunista (é efetivamente quem exerce o poder na Rússia comunista) com a morte de Stalin em 1953, exercendo o poder até 1964. Khrushchov foi responsável pelo famoso “discurso secreto” realizado em 1956 onde denunciou ao mundo as barbáries cometidas pelo regime de Stalin.

Outro ponto que merece ser destacado é a relação que o diretor constrói entre Zaitsev e o personagem de Ed Harris (o imbatível atirador da Alemanha). Algumas associações são evidentes e propositais. O alemão aparece sempre impecável, arrogante, inteligente, representando ele próprio o que o diretor entende por uma Alemanha no auge de seu expansionismo e poder bélico. O caçador russo incorpora nobres qualidades: humilde, corajoso, predestinado, nacionalista. Como diria o personagem de Joseph Fiennes (sempre insuficiente em suas atuações) a luta dos dois atiradores representa também a luta de classes. Mas seria esse o recado final de Annaud?

Creio que não. Duas passagens ilustram a curva que Annaud vai fazer em relação ao conceito de luta de classes – a partir das premissas de Marx. A primeira é através do atirador que havia treinado na Alemanha, e que representa no filme toda a brutalidade que um regime pode ter, mesmo sendo ideologicamente comunista, ou como ele diz: não se iludam. A segunda passagem da o desfecho do filme: antes de revelar a posição do atirador alemão, o personagem de Fiennes declara que por mais que queiram uma sociedade de iguais sempre existirá algo para se invejar. Essa intersecção fundamental para o filme justifica a presença da dispensável Rachel Weisz e mostra uma das grandes discussões filosóficas de todos os tempos em relação ao que se convém chamar de natureza humana e suas predisposições e desejos; ou seja, é possível uma sociedade onde as pessoas vivessem em “Harmonia”, em uma verdadeira “Utopia”, ou quem sabe ainda em uma “Nova Atlântida”? Ao fim e ao cabo o tiro na cabeça de Fiennes pode representar a morte inútil de milhares de seres humanos e teleologicamente a derrocada do próprio regime comunista. 

Abaixo a foto de Vasily.Zaitsev, em outubro de 1942



Abaixo cenas do filme Círculo de Fogo.


Os conteúdos dispostos nas postagens são rascunhos, podendo apresentar erros de concordância ou ortografia. Na medida do possível tentar-se-á corrigir as imprecisões, incluir a bibliografia e rever textos e informações imprecisas.

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Imago História

2 comentários:

  1. OI PROFº....ADORO ESTE FILME...EU SOU SUSPEITA DE FALAR BEM DELE..HAHAH...ADORO TODOS OS FILMES DE guerra!!...INFELIZMENTA Ñ ESTAMOS TENDO AULA POR CAUSA DO VIRUS H1N1...MAS ESPERO Q AS AULAS VOLTEM LOGO...ABRAÇO.

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  2. AHHH ESQUECI DE COLOCAR MEU NOME...SOU A ISABEL DO 1ºE DO LAMENHA LINS

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