Na média, ou Bill Gates no restaurante


Meu saldo bancário junto com o do Antônio Ermírio de Morais seria um dos mais altos do Brasil. O fato de o Antônio Ermírio ser responsável por 98,2% do saldo não afetaria a exatidão da frase. Se eu estivesse num restaurante com outras quinze pessoas e o Bill Gates chegasse para jantar, a renda média dos presentes – a soma da renda de cada um dividida por dezessete – se multiplicaria automaticamente e eu estaria matematicamente rico, pelo menos até o Bill Gates ir embora. Antes de me entusiasmar e gritar “Garçom, suspende a Coca Diet e traz um Château Petrus2!”, no entanto, eu deveria meditar sobre os perigos do dado mal examinado e da estatística enganosa.

Só uma ilusão parecida com a que nos tornaria mais ricos pela simples companhia do Bill Gates explica que, em meio à revolta generalizada com a reforma da Previdência – em boa parte procedente e justa – categorias inteiras se indignem com a diminuição de tetos de proventos que só afetaria uma minoria, entre elas os “marajás” tão execrados na retórica desde que o Collor se elegeu prometendo eliminá-los, há catorze anos. Entre os erros e acertos da sua reforma, o governo pode muito bem lamentar que, com o tempo, a caça a marajás tenha perdido seu charme político, ou caído de moda. Ganhos altos imexíveis se misturam com a causa legítima de servidores públicos que, na maioria, ganham uma miséria. Mais uma prova que, como no caso da reforma agrária, que todos apóiam desde que não seja preciso fazê-la, o grande desafio para quem quer mudar o Brasil é conseguir transformar retórica em fato.

De certa maneira, o fator Bill Gates no restaurante, ou o raciocínio pela média ilusória, é o que tem mantido a paz social no Brasil. Entre os grandes produtores rurais que nunca produziram e ganharam tanto, e as hordas de despossuídos no campo, na média estão todos bem. Entre os bancos que nunca lucraram tanto e o comércio e a indústria que penam, na média todos progridem. Entre a décima economia do mundo e a pior distribuição de renda do mundo, na média não está tão ruim assim. Entre os poucos que vivem a doce vida brasileira e os milhões que padecem da nossa desigualdade histórica, na média somos felizes. Entre uma Bélgica e uma Botsuana, na média somos, sei lá... um Brasil. E Antônio Ermírio e eu, na média, não temos do que nos queixar.

Luis Fernando Verissimo





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