As diferentes perspectivas do trabalho: O trabalho humano


Trabalho vem de tripalium, que era um instrumento feito de três paus aguçados, algumas vezes munidos de pontas de ferro, no qual os agricultores batiam o trigo ou outros alimentos com a finalidade de rasgá-los.

A maioria dos dicionários, contudo, registra tripalium apenas como instrumento de tortura, o que teria sido originalmente, ou se tornado depois. A tripalium se liga o verbo do latim vulgar tripaliare, que significa justamente "torturar". 

Essa é uma faceta da realidade evocada no termo trabalho, aquela que revela a dureza, fadiga, e dificuldade irreversivelmente constitutivas da vida humana. Essa concepção do trabalho enquanto pena é comumente encontrada no repertório simbólico de diversas culturas. Não sem motivo ser comum a utilização de expressões negativas associadas ao trabalho como, por exemplo: 

“Vou à luta”. 
“Vou ganhar o pão” 
“Tenho que garantir o leite das crianças” 

Mas será que de fato “trabalho” se restringe somente a este aspecto constitutivo da vida humana? 

O trabalho humano e o trabalho realizado pelos demais animais 

Uma definição plausível para “trabalho” pode ser a capacidade de o homem criar e transformar a natureza. Nesse âmbito, temos uma concepção mais ampla do que a simples ideia de trabalho enquanto pena. 

Contudo, poderiam acrescentar que da mesma forma que o homem, outros animais em contato com a natureza conseguem modificá-la, produzindo trabalho. Nesse sentido, o que de fato distingue o trabalho humano daquele realizado pelos demais animais? 

Podemos, por exemplo, pensar nas diversos atos executados por animais considerados mais simples, como os insetos, mas que demonstram uma habilidade incrível, como a aranha tecendo a sua teia ou uma abelha construindo a colmeia. 

Se comparado com o trabalho executado pelo homem, esses animais poderiam até mesmo ser considerados perfeitos. Contudo, trata-se de uma falácia. Esses animais são regidos por leis biológicas, idênticas na espécie e invariáveis, que não permitem inovações e são transmitidas de forma hereditária. Trata-se de um ato involuntário, instintivo, ou seja, podemos prever as reações típicas de cada espécie. 

Devemos aqui fazer uma distinção entre o que se entende por “instinto” e “ato voluntário”. 

Quando falamos, por exemplo, que “os instintos são cegos”, fazemos referência a uma atividade que ignora a finalidade de sua própria ação. O ato voluntário, por sua vez, tem consciência de sua finalidade, “consciência de si”, ou seja, existe antes como forma de pensamento, como uma intencionalidade uma possibilidade de algo que se quer colocar em prática, que se deseja executar. Essa é a primeira grande diferenciação entre o ser humano e os demais animais. Leia a descrição de Marx com relação ao trabalho executado pelas abelhas e o trabalho executado pelos homens, atentando para a importância da intencionalidade: 

“Uma aranha executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha envergonha mais de um arquiteto humano com a construção dos favos de suas colmeias. Mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construi-lo em sua colmeia. No fim do processo de trabalho obtém-se um resultado que já no início deste existiu na imaginação do trabalhador, e, portanto, idealmente. Ele não apenas efetua uma transformação da forma da matéria natural: realiza, ao mesmo tempo, na matéria natural seu objetivo, que ele sabe que determina como lei, a espécie e o modo de sua atividade e ao qual tem que subordinar sua vontade. E essa subordinação não é um acontecimento isolado. Além dos órgãos que trabalham, é exigida a vontade orientada a um fim, que se manifesta com atenção durante todo o tempo de trabalho.” 

Mas o que dizer de animais como os símios que conseguem demonstrar sinais que superam o puro e simples instinto, como, por exemplo, o chimpanzé que para alcançar seu alimento tenta subir em um caixote e percebendo que não consegue alcançar seu alimento, utiliza-se de um bambu, e depois encaixa um bambu em outro até cumprir seu objetivo. Trata-se de uma ação que não é puramente instintiva, ao contrário, permeada pela flexibilidade, denotando um sinal de inteligência. 


Há de se considerar, contudo, que o animal utiliza o que está à sua mão, aquilo que lhe é proporcionado pelo meio para cumprir um objetivo imediato, jamais inventa o instrumento nem tampouco o conserva para posterior utilização. Por mais que muitos mamíferos demonstrem sinais evidentes de inteligência flexível e organização social, jamais conseguir superar a mundo natural. Somente o homem conseguiu transformar a natureza de forma significativa. 

Assim, para todos que compartilham do pensamento de Marx, o que distingue o trabalho humano do trabalho realizado pelos animais é que nele há uma intencionalidade, consciência, sendo que os animais trabalham por instinto, sem consciência ou intencionalidade. 

Por meio do trabalho se expressa à liberdade humana, uma vez que os seres humanos por mais que sejam explorados em determinadas atividades produtivas não podem ser programáveis como robôs. 

O único ser vivo capaz de agir além daquilo que seu equipamento biológico permite de imediato é o homem. Ele não é provido de asas e de estrutura óssea favorável ao vôo, mas voa inventando um avião. Ele não está equipado para retirar oxigênio diretamente da água, mas isso não o impede de descer ao fundo dos mares. Tudo isso indica que o homem é um animal ímpar. Embora permanecendo animal, livra se dos laços que o prendem à natureza. 


A falácia do trabalho intelectual e manual

Essas considerações expostas no tópico anterior ajudam a quebrar a ideia de uma grande dissociação entre o trabalho intelectual (aquele em que não se produz de imediato nada de visível) e o trabalho manual, corporal, (que resulta em algo perceptível, uma mudança de estado). Pensemos, por exemplo, na atividade exercida pelo pedreiro. Ele não utiliza sua inteligência e raciocínio para erguer uma parede de tijolos? E no caso de um intelectual que escreve um livro. Esse escritor não tem um desgaste físico ao escrever esse livro?

Por essa analogia podemos perceber que a separação entre trabalho intelectual e o manual é uma falácia criada ao longo da história. Essa divisão acontece porque ao longo de muito tempo se procurou valorizar as pessoas que se especializaram somente em pensar, em organizar o trabalho dos outros e desvalorizar quem executa trabalhos que requerem força física. E claro, que essas pessoas que mandavam começaram a acumular poder em suas mãos decidindo o que é certo e o que é errado, sempre é claro, procurando favorecer o grupo ao qual pertenciam. 

Nesse sentido a divisão entre trabalho intelectual e manual foi utilizada como um instrumento e ao mesmo tempo falso argumento para dominar e explorar determinados grupos sociais.


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