Brasil Colônia - A Sociedade do Açúcar



A expedição de Martim Afonso de Souza tinha como um de seus principais objetivos, verificar a possibilidade do cultivo da cana-de-açúcar. De fato, o açúcar, se tornaria a base econômica da colonização do Brasil. Diferente do mel (cuja utilização era muito mais antiga), a sacarose – extraída da cana-de-açúcar – começou a ser utilizada na Europa somente nos últimos quinhentos anos.

A história do açúcar na Europa começa com o domínio da Península Ibérica, a partir de 711 pelos árabes, que acabaram introduzindo a cana-de-açúcar no continente. Posteriormente, as Cruzadas trataram de aumentar a circulação e o consumo, transformando o açúcar em uma especiaria cobiçada. Rapidamente se popularizou, tornando-se até mesmo item nos testamentos de reis e dotes de princesas. No século XVII o consumo já estava bastante disseminado na nobreza e na mesa dos mais abastados. Investir na produção do açúcar era, portanto, um negócio que poderia se tornar muito lucrativo.

Entre os fatores que favoreceram a adoção da produção açucareira, pode-se destacar:

  • O alto valor que o açúcar alcançava na Europa.
  • A adaptação da cana-de-açúcar ao clima e ao solo do nordeste brasileiro, em decorrência principalmente do massapê (solo fértil, ideal para a produção da cana).
  • A ausência de concorrentes.
  • A experiência que os portugueses tinham acumulado plantando cana-de-açúcar em algumas ilhas do Atlântico, notadamente, a Ilha da Madeira e São Tomé (inclusive, com a ampla utilização de mão-de-obra escrava).
  • Os investimentos holandeses nos engenhos, no refino e comercialização do açúcar na Europa.

As primeiras mudas de cana-de açúcar que chegaram ao Brasil vieram com a expedição de Martim Afonso de Souza e foram plantadas no litoral de São Vicente em 1532. No local foi construído o primeiro engenho de açúcar do Brasil cujas ruínas existem até os dias de hoje. O exemplo da capitania de São Vicente foi seguido pelas outras capitanias que haviam sido colonizadas, disseminando o modelo do engenho em Porto Seguro, Ilhéus e na capitania da Bahia e de Pernambuco.

No nordeste a cana-de-açúcar encontraria um solo propício, um clima quente é úmido, uma rede hidrográfica que poderia ser utilizada para o transporte até o litoral, além de uma maior proximidade com a metrópole (em comparação com outras capitanias), fazendo sua indústria prosperar e se transformar em uma região prioritária dentro do Império Português.

“Os primeiros engenhos começaram a funcionar em Pernambuco no ano de 1535, sob a direção do donatário Duarte Coelho. A partir daí os registros não parariam de crescer: quatro estabelecimentos em 1550; trinta em 1570, e 140 no fim do século XVI. A produção de cana alastrava-se não só numericamente como espacialmente, chegando à Paraíba, ao Rio Grande do Norte, à Bahia e até mesmo ao Pará. Mas foi em Pernambuco e na Bahia, sobretudo na região do Recôncavo baiano, que a economia açucareira de fato prosperou.”

Em relação à mão-de-obra, os índios seriam considerados inadequados para o trabalho, em parte por pressão das ordens religiosas, que muitas vezes via nos indígenas um “rebanho” que deveria ser catequizado e não escravizado. Por outro lado, o conhecimento do território contribuiu para que ocorressem muitas fugas por parte de indígenas. Ao mesmo tempo, criou-se o estereótipo do “indolente” “inapto” para o trabalho e “rebelde”. Deve-se destacar que certamente os gentios (indígenas) não eram mais rebeldes que qualquer outro povo submetido ao sistema escravocrata.

Não obstante, os portugueses não levavam em conta que a ideia de trabalho dos povos indígenas era bastante diferente da dos europeus. Entre os nativos prevalecia a ideia de um trabalho mais coletivo e comunitário. A produção tinha um caráter doméstico e não visava acumular excedente. O poder e o status não estavam relacionados somente com a capacidade econômica, e o lucro não era a lógica primordial da estruturação econômica e social. Tratava-se de outra lógica de produção e consumo, que obviamente não passava pela sensibilidade ou interesse dos portugueses. É importante perceber quanto, ainda hoje, essa visão deturpada dos povos indígenas continua presente na percepção coletiva dos brasileiros.

Mesmo sendo considerados “indolentes” pelos portugueses, a escravização dos indígenas continuaria até o século XVIII. Porém, a indústria do açúcar optaria pela utilização de uma mão-de-obra com fornecimento mais estável, caráter mercantil e lucro garantido: o tráfico de seres humanos vindos do continente africano.

O Brasil recebeu 40% dos africanos que compulsoriamente deixaram seu continente para trabalhar nas colônias agrícolas da América portuguesa, sob regime de escravidão, num total de cerca de 3,8 milhões de imigrantes. Hoje, com 60% de sua população composta de pardos e negros, o Brasil pode ser considerado o segundo mais populoso país africano, depois da Nigéria.”






Imago História

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